O Fantástico Padre Landell de Moura e aTransmissão sem FioMarcelo S. Alencar, Waslon T. A. Lopes*, Thiago T. AlencarInstituto de Estudos Avançados em Comunicações (Iecom)Universidade Federal de Campina GrandeCampina Grande PB*Faculdade ÁREA1, Salvador BAResumoO padre Landell de Moura construiu o primeiro transmissor sem fio para atransmissão de mensagens, em 1892. Em 1894, ele realizou a primeiratransmissão por meio de ondas hertzianas, com uma transmissão entre oalto da Avenida Paulista e o alto de Sant'Anna, em São Paulo, cobrindouma distância de oito quilômetros. Entre 1903 e 1904, Landell de Mouraconseguiu, nos Estados Unidos, as patentes de três inventos: o transmissorde ondas (hertzianas ou landellianas), o telefone sem fio e o telégrafo semfio. A patente brasileira do aparelho do padre Landell recebeu o número3279, em 1900. Este artigo conta um pouco de sua história.IntroduçãoRoberto Landell de Moura nasceu no dia 21 de janeiro de 1861, na cidade dePorto Alegre, Rio Grande do Sul, na então Rua de Bragança, hoje Marechal Floriano,numa casa que fazia esquina com a antiga Praça do Mercado, tendo sido batizado,conjuntamente com sua irmã Rosa, a 19 de fevereiro de 1863, na Igreja do Rosário, decuja frequesia, anos mais tarde, e até falecer, viria a ser vigário. Ele foi o quarto dedoze irmãos, filhos de Inácio José Ferreira de Moura e Sara Mariana Landell deMoura, ambos descendentes de tradicionais famílias do estado do Rio Grande do Sul(FORNARI, 1960).Landell de Moura estudou no Colégio dos Jesuítas, em São Leopoldo, cidadepróxima a Porto Alegre, capital do Rio Grande do Sul. Fez o curso de humanidades,conhecido na época como Clássico, equivalente ao Ensino Médio, hoje em dia. Em1879, Landell de Moura transferiu-se para o Rio de Janeiro, para estudar na EscolaCentral, antiga Academia Real Militar, fundada em 1792, por ordem de Dona Maria I,Rainha de Portugal, com o nome de Real Academia de Artilharia, Fortificação eDesenho, e hoje com o nome de Instituto Militar de Engenharia (IME).Aparentemente, ele se empregou em um armazém de secos e molhados para custearsua estadia na capital do Império (ALENCAR, 2003).Ilustração 1: Padre Roberto Landell de Moura.No Rio de Janeiro Landell de Moura passou apenas alguns meses. Seu irmão,Guilherme, que pretendia seguir carreira eclesiástica, passou pelo Rio de Janeiro, acaminho de Roma, Itália, e o convenceu a abraçar o sacerdócio. No Brasil do século19 e até o início do século 20 era importante que cada família tradicional tivesse umpadre, assim como um oficial militar (NASCIMENTO; REIS, 1982}.Landell de Moura freqüentou o Colégio Pio Americano e também aUniversidade Gregoriana, em Roma, como aluno de Física e Química, matérias paraas quais mostrava inclinação desde criança. Ele foi ordenado sacerdote em 28 denovembro de 1886. De volta ao Brasil, foi residir na casa dos padres no Morro doCastelo, Rio de Janeiro, época em que teve oportunidade de trocar algumas idéias comD. Pedro II, Imperador do Brasil, sobre transmissão do som, assunto que fascinava D.Pedro II desde 1856 e que o levou a financiar parte dos trabalhos de AlexanderGraham Bell nos Estados Unidos (ALENCAR, 2004).O padre Roberto Landell de Moura construiu o primeiro transmissor sem fiopara a transmissão de mensagens, em 1892, alguns anos antes de Marconi começarseus primeiros testes na Itãlia. Em 1894, ele realizou a primeira transmissão públicapor meio de ondas hertzianas, entre o alto da Avenida Paulista e o alto de Sant'Anna,em São Paulo, cobrindo uma distância de oito quilômetros. Entre 1903 e 1904,Landell de Moura conseguiu, nos Estados Unidos, as patentes de três inventos: otransmissor de ondas (hertzianas ou landellianas), o telefone sem fio e o telégrafo semfio. A patente brasileira do aparelho do padre Landell recebeu o número 3279, e foiobtida em 1900. Este artigo conta um pouco de sua história, com o objetivo depermitir que seu nome figure entre os grandes inventores na área de comunicações detodos os tempos.O Padre Landell de Moura e Seus PrincípiosApós curta temporada no Rio de Janeiro, o padre Landell de Moura foidesignado capelão e professor de História Universal do Seminário Episcopal de PortoAlegre. Em 1891, foi nomeado vigário paroquial de Uruguaiana e, em 1982, foitransferido para o estado de São Paulo, onde, por sete anos, trabalhou como vigárioem Santos, Campinas e Sant'Ana.Em 1893, o padre Landell de Moura trabalhava na cidade de Campinas,interior do estado de São Paulo. Fazia alguns anos que ele havia chegado da Itália e acalma da cidade permitiu-lhe desenvolver suas idéias sobre a transmissão sem fio,cujos princípios foram enunciados por ele mesmo:“Todo movimento vibratório que até hoje, como no futuro, pode sertransmitido através de um condutor, poderá ser transmitido através de um feixeluminoso; e, por esse mesmo fato, poderá ser transmitido sem o concurso desseagente”.“Todo movimento vibratório tende a transmitir-se na razão direta de suaintensidade, constância e uniformidade de seus movimentos ondulatórios, e na razãoinversa dos obstáculos que se opuserem à sua marcha e produção”.“Dai-me um movimento vibratório tão extenso quanto a distância que nossepara desses outros mundos que rolam sobre nossa cabeça, ou sob nossos pés, e eufarei chegar minha voz até lá”.Esse último princípio provocou a ira de muitos paroquianos e de algumasautoridades eclesiásticas - em 1893 um padre brasileiro assegurava a transmissãoentre diferentes sistemas planetários e, contra o que pregavam os ensinamentosseculares da Igreja, insinuava a existência de vida em outros mundos. Seulaboratório, montado a custo de muito trabalho e suor, foi mais de uma vez destruído.Mas o padre Landell de Moura, pacientemente, reconstruía seus equipamentos econtinuava seu trabalho científico. Ele chegou, inclusive, a idealizar o teletipo, ocontrole remoto e uma forma de transmissão de televisão (ALMEIDA, 1983).Os Experimentos em Comunicações sem FioO padre Landell de Moura vivia, então, carregando seus misteriososembrulhos, que continham as peças de um aparelho por ele inventado e com o qual -segundo afirmava - poderia falar com outra pessoa colocada a quilômetros dedistância, sem ser necessário fio algum (FORNARI, 1960). Alguns interessadospediram-lhe provas. O padre, com o seu aparelho ainda rudimentar, realizou váriasexperiências de transmissão e recepção sem fio da voz e todas elas tiveram completoêxito.Essas experiências, algumas das quais levadas a efeito com a finalidade deinteressar as autoridades e conseguir financiadores para o aperfeiçoamento eexploração industrial de seu invento, tiveram lugar, do alto da Avenida Paulista aoalto de Sant'Anna, numa distância aproximada de oito quilômetros, em linha reta -mais de um ano antes, portanto, da primeira e elementar experiência realizada, porintermédio das ondas hertzianas, por Guglielmo Marconi, em Pontéquio, perto deBolonha, Itália, na primavera de 1895, e cerca de seis anos antes de seu primeiroradiograma.O padre Landell de Moura, apesar das perseguições que sofria, declarou, naépoca (FORNARI, 1960):“Quero mostrar ao mundo que a Igreja Católica não é inimiga da Ciência e doprogresso humano. Indivíduos, na Igreja, podem, neste ou naquele caso, haver-seoposto a esta verdade; mas fizeram-no por cegueira. A verdadeira fé católica não anega. Embora me tenham acusado de participante com o diabo e interrompido meusestudos pela destruição de meus aparelhos, hei de sempre afirmar: isto é assim e nãopode ser de outro modo... Só agora compreendo Galileu exclamando: E pur semuove!”Em 1900, finalmente, sempre perseguido por toda sorte de vexames edificuldades financeiras, consegue obter uma patente brasileira, sob o número 3279,expressamente concedida, como descrito no documento,“Para um aparelho apropriado à transmissão da palavra à distância, com ousem fios, através do espaço, da terra e da água”.Vale a pena reproduzir a nota publicada no Jornal do Commercio, de SãoPaulo, em 10 de junho de 1900, sobre uma das experiências do padre Landell(ALENCAR, 2003):“No domingo próximo passado, no Alto de Sant'Anna, cidade de São Paulo, opadre Roberto Landell fez uma experiência com vários aparelhos de sua invenção, nointuito de demonstrar algumas leis por ele descobertas no estudo da propagação dosom, da luz e da eletricidade, através do espaço, da terra e do elemento aquoso, asquais foram coroadas de brilhante êxito.Estes aparelhos eminentemente práticos são, como tantos corolários,deduzidos das leis supracitadas. Assistiram a esta prova, entre outras pessoas, o Sr. P.C. P. Lupton, representante do Governo Britânico, e sua família”.Mais interessante ainda é a descrição, feita pelo próprio padre Landell, de doisde seus inventos:“O Anematófono é um aparelho com o qual, sem fio, obtém-se os efeitos datelefonia comum, porém com muito mais nitidez e segurança, visto funcionar aindamesmo com vento e mau tempo. É admirável este aparelho pelas leis inteiramentenovas que revela, como, outrossim, o que se segue:O Teletition, sorte de telegrafia fonética, com o qual, sem fio, duas pessoaspodem se comunicar, sem que sejam ouvidas por outra. Creio que com este meusistema poder-se-á transmitir, a grandes distâncias e com muita economia, a energiaelétrica, sem que seja preciso usar-se fio ou cabo condutor”.O padre Landell chegou a oferecer a patente de seu invento ao Sr. Lupton, paraque a Inglaterra industrializasse o transmissor sem fio. Parentes e velhos amigos dopadre, consultados a esse respeito, disseram que o Sr. Lupton, que era homemformalista e de poucas luzes científicas, não chegara a levar o oferecimento do padreLandell de Moura ao conhecimento da Inglaterra, por não acreditar na utilidadeprática (e comercial, principalmente) da Telefonia sem fio.Outra versão afirma que o cônsul ficara tão deslumbrado com o invento, queprometia revolucionar totalmente a ciência contemporânea, que aconselhara o padreLandell a transferir-se para a Grã-Bretanha, a fim de lá patentear seus inventos e,depois dessa formalidade necessária, doá-los então, diretamente, à rainha Vitória, parao que se prontificava a conseguir de seu Embaixador as credenciais que orecomendariam ao Governo de seu país - alternativa que o padre não aceitou por ter,para isso, que custear de seu bolso todas as despesas de passagem e manutenção.Uma terceira versão para o episódio diz que o oferecimento fora encaminhado,mas que a burocracia anglo-saxônica era, como a brasileira, tão emperrada edemorada, que os papéis referentes ao processo, dez anos mais tarde, ainda deviamainda estar transitando pelos canais competentes.As Patentes Obtidas nos Estados Unidos da AméricaLandell de Moura decidiu partir para os Estados Unidos, em 1901, para lápatentear seus inventos, tendo em vista as dificuldades para industrializá-los noBrasil. Juntou algum dinheiro e partiu, em meados do ano, pensando em retornarrapidamente. Um jornalista especializado norte-americano, em uma coluna do NewYork Herald de 12 de outubro de 1902, descreve o padre Landell de Moura como “umcavalheiro de uns quarenta anos de idade'' que estava na plenitude de seu gênio(HERALD, 1902).O padre Landell de Moura viveu nos Estados Unidos por um período de trêsanos, durante os quais entusiasmou os meios científicos norte-americanos com seusinventos, entre os quais os três mais importantes para o mundo: o Telefone sem fio, oTelégrafo sem fio e o Transmissor de ondas.Sua demora nos Estados Unidos, no entanto, tem uma história: três meses apóssua chegada, em documento datado de 4 de outubro de 1901, o padre Landell deMoura requereu a patente de seu primeiro invento, o Telefone sem fio, acreditantoque, uma vez patenteado o telefone (o que julgava por conseguir em questão desemanas), os meses restantes seriam suficientes para obter o patenteamento dosdemais inventos.O Escritório de Patentes de Washington The Patent Office, porém, não ficousatisfeito com a exposição teórica de seu requerimento. “Eram tão revolucionárias assuas teorias - foi-lhe declarado naquela repartição, segundo informaram seus irmãosPedro e Dr. João Landell de Moura, pessoas bastante conhecidas em Porto Alegre,onde gozavam do mais alto conceito - que a patente não poderia ser concedida sem aapresentação de um modelo do aparelho, para demonstrações práticas” (FORNARI,1960).Foi no decurso desses três trabalhosos anos que ele requereu, em ofíciosdatados de 16 de janeiro de 1902 e 9 de fevereiro de 1903, respectivamente, opatenteamento de outros dois inventos: o Telégrafo sem fio e o Transmissor de ondas.Entretanto, ainda para esses, The Patent Office exigia os respectivos modelos,o que foi feito. Uma vez apresentados, foram-lhe concedidas, finalmente, as trêspatentes, assim mesmo somente depois de repetidas e meticulosas provas e contraprovas,que consumiram dois anos. É que, dada a responsabilidade que aquelarepública assumiria perante o mundo, com a expedição do reconhecimento oficial detão relevantes inventos, que, fatalmente, viriam imprimir novas e imprevisíveisperspectivas à civilização e às relações entre povos, não seria aconselhável registrálossem, antes, ter tido provas materiais concludentes, positivas, da exatidão de suasteorias e da eficiência de seus aparelhos.Cumpridas essas formalidades, foram-lhe entregues as patentes sob números771 917 de 11 de outubro de 1904 (Transmissor de ondas); 775 337, de 22 denovembro de 1904 (Telefone sem fio), e 775 846, da mesma data (Telégrafo sem fio).Com o sentimento do dever cumprido, o padre Landell de Moura retorna aoBrasil em princípios de 1905. Pretendia ser esse, entretanto, um regresso de curtaduração. O padre Landell de Moura pensava em permanecer apenas três meses no Riode Janeiro, retornando então a Nova York, a fim de ali, terra de maiores recursoscientíficos, não só prosseguir os seus estudos e experimentos, mas ainda patentear seisoutros importantes inventos, hoje desaparecidos. Entretanto, o futuro cônego nãosairia mais do Brasil, e seria forçado a abandonar seus trabalhos de investigaçãocientífica.O padre Landell de Moura também conhecia as propriedades do selênio, emrelação à sensibilidade do material aos raios azuis, violetas e ultravioletas e, apesardele não constituir a base essencial de um de seus mais importantes inventos, háalgum tempo ele vinha utilizando-o em algumas de suas transmissões. O padreLandell de Moura já se utilizava do efeito fotoelétrico, estudado pelo Prof. ErnestRuhmer, e que valeu a Albert Einstein o prêmio Nobel de 1905, para a transmissão deinformação usando um feixe luminoso.Para melhor esclarecer o assunto, segue um resumo de cinco sistemas detransmissões aéreas que constam das três Patentes expedidas pelo governo norteamericano(FORNARI, 1960):● Transmissão acústica da voz articulada, ou fonografada, a curta distância, medianteuma corrente de ar mandada na mesma trajetória percorrida pela voz, ao natural, nointuito de reforçá-la;● Transmissão acústica luminosa, por meio de um feixe de luz. A influência dessefeixe, como da corrente de ar, no primeiro sistema, foi descoberta pelo padreLandell de Moura;● Transmissão elétrica da voz humana, por intermédio de um feixe luminosoproduzido por um arco voltáico, ou qualquer outra fonte de irradiações actínias. Oreceptor, que é uma cápsula selênica, só funciona sob a ação dos raios actínicos,uma propriedade também descoberta pelo padre;● Transmissão electromagnética do sistema fônico, harmônico, luminoso e da vozhumana, mediante a superposição de vibrações elétricas irradiantes. Neste caso, opadre Landell de Moura utilizava-se de sua lâmpada de três eletrodos e de váriosoutros aparelhos que figuram em suas patentes, combinados entre si, e segundo osefeitos que o mesmo tinha em mente produzir quando telegrafava, ou telefonava,sem fio condutor;● Transmissão elétrica do sistema fônico da palavra ou da nota musical, mediantecintilações produzidas por uma lâmpada de sua invenção, dita cintilante, e a qualfigura de seu Transmissor de ondas.A descrição do que seriam ondas landellianas, feita por um jornal de São Pauloque, em 1900, se ocupou das teorias científicas do padre inventor, lembra o que hojese denomina sóliton (FORNARI, 1984).“Embora sejam, aparentemente, do mesmo gênero das ondas hertzianas, todaviadiferem muito destas últimas, por que estas são ondas mais ou menos amortecíveis eproduzidas por movimentos vibratórios elétricos sem constância nem uniformidade,que vão, pouco a pouco, decrescendo, ao passo que aquelas - as ondas landellianas -não estão sujeitas a tais transformações e são produzidas por movimentos vibratórioselétricos cujos valores ondulatórios são contínuos, e permanecem sempre iguais.Em suas teorias sobre superposição dos movimentos vibratórios, acústicos,luminosos, radiantes e eletromagnéticos, para transmitir e receber o sinal fônico,luminoso, harmônico, acústico e da voz humana articulada, ou fonografada, através doespaço, da terra, do elemento aquoso, essas ondas têm uma ação definitiva, pois seprojetam de modo contínuo, entre as estações transmissora e receptora, formando umcampo ondulatório permanente e uniforme. E era através desse campo que ele enviavasuas mensagens telegráficas e telefônicas”.A concepção desse “campo ondulatório através do espaço” não era apenas umaidéia genial, mas uma realidade científica, depois aproveitada para diversos fins. Opadre Landell de Moura expressava tantas vezes em entrevistas a possibilidade detransmitir a imagem a grandes distâncias - antecipando em décadas o aparecimento datelevisão.O Fim do Gênio EsquecidoO padre Landell de Moura, ao retornar dos Estados Unidos ao Rio de Janeiro,em 1905, solicita ao Presidente da República, Dr. Rodrigues Alves, dois navios parademonstrar seus inventos. Um oficial de gabinete do Presidente fica boquiaberto aosaber que o padre falava em transmissão a qualquer distância e aconselha o Presidentea não permitir o experimento, achando que o padre era maluco.Diante da negativa disfarçada da Secretaria da Presidência da República e dadúvida que se lançava sobre a legitimidade de seus inventos, profundamente abalado,completamente desiludido, o padre Landell de Moura, num ímpeto de irritação,destruiu seus aparelhos e encaixotou seus livros, cadernos e documentos, já agoraresolvido a voltar-se exclusivamente ao sacerdócio, em que, por certo, haveria deencontrar consolo para as suas desventuras e decepções (FORNARI, 1984).O Monsenhor Roberto Landell de Moura, o pioneiro esquecido, o precursor datransmissão sem fio, o esquecido inventor brasileiro, morreu anonimamente, aos 67anos de idade, no dia 30 de julho de 1928, num modesto quarto da BeneficênciaPortuguesa, de Porto Alegre, cercado apenas por seus parentes e meia dúzia de amigosfiéis e devotados.Quatro anos antes de sua morte, no dia 3 de novembro 1924, declarava o jáentão Cônego Penitenciário Landell de Moura a um redator do extinto órgão portoalegrenseÚltima Hora, o qual o entrevistara por motivo da anunciada instalação, pelaRádio Clube Paranaense, de uma emissora de grande potência, em Curitiba(FORNARI, 1960):“Deus serviu-se de minha humilde pessoa para levantar o véu que encobre ossegredos da natureza, porquanto o sistema de radiotelefonia, atualmente em uso, ébaseado no princípio da superposição dos movimentos ondulatórios elétricos e naaplicação de uma lâmpada semelhante à lâmpada de Crookes, de três eletrodos, umpouco modificada, e a qual serve tanto para transmitir quanto para receber mensagenstelefônicas e telegráficas, sem fio condutor”.Realmente, a descoberta deste princípio, a invenção e aplicação dessa lâmpada(válvula) devem-se ao padre Landell de Moura, e não somente para esses fins, mastambém para outros, todos de grande alcance científico. Ninguém antes dele haviautilizado ondas eletromagnéticas (ondas landellianas, como era dito na época)geradas pela lâmpada supra-mecionada para a transmissão de informação. Essaextraordinária conquista cabe, integralmente, a ele, pois apenas em 1907 Lee DeForest apresentaria ao mundo sua célebre “Lâmpada de três eletrodos”, utilizada porHoward Armstrong para desenvolver o rádio homodino nos Estados Unidos.O Brasil, que esquecera seu maior inventor na área de telecomunicações,iniciava a República como membro da União Postal Internacional e fazendo parte detodos os acordos internacionais que regulavam a telegrafia, os cabos submarinos e asinalização marinha (OAKENFULL, 1912).ReferênciasALCIDES, J, “PRA-8 - O Rádio no Brasil”. Fatorama, Brasília, Brasil (1997).ALENCAR, M. S., “O Fantástico Padre Landell de Moura”. Artigo para jornaleletrônico na Internet, Jornal do Commercio On Line, Recife, Brasil (2000).ALENCAR, M. 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S, “Subsídios para Saldar uma Dívida”.Tipografia Costa Carregal, Porto, Portugal (1982).OAKENFULL, J.~C., “Brazil in 1911”. Butler & Tanner, Frome and London,London, Great Britain (1912).Ilustração 2: Patente 771.917 (folha 1)Ilustração 3: Patente 775.337 (folha 1).Ilustração 4: Patente 775.846 (folha 01).